Stablecoins: salvação da hiperinflação

Podem os dólares digitais substituir o dinheiro em papel?
BTC/USD
Zona-chave: 83,500 - 87,000
Compra: 87,500 (após reteste do nível 90.000) ; alvo 90,000-93,500; StopLoss 86,500
Venda: 82,500 (com fundamentos fortemente negativos) ; alvo 80,000-78,500; StopLoss 83,500
Em países com inflação crónica, controlo cambial e acesso limitado à liquidez em dólares, as stablecoins estão a tornar-se um elemento pleno do sistema financeiro. Desempenham as funções do dinheiro onde as moedas nacionais perderam credibilidade e o sistema bancário já não consegue cumprir tarefas básicas.
E não se trata de especuladores. Em países com hiperinflação, os criptoativos são utilizados como reserva de valor e unidade de conta, compensando a indisponibilidade do dólar físico e a ineficiência dos sistemas de pagamento locais.
Recordemos:
Em ambientes instáveis, a prioridade não é a rentabilidade da moeda, mas a estabilidade nominal e a liquidez. As criptomoedas voláteis são pouco adequadas para pagamentos quotidianos e poupança de curto prazo (basta ver o que acontece com o Bitcoin). As stablecoins, por outro lado, permitem fixar o valor em USD sem recurso a bancos nem a restrições cambiais.
O dólar físico cumpre formalmente a mesma função, mas na prática a sua utilização é dificultada por:
- controlo cambial;
- limites de levantamento;
- escassez de numerário;
- múltiplas taxas de câmbio;
- divergência entre a taxa oficial e a de mercado;
- sanções técnicas e políticas, entre outros fatores.
Sempre que surgem problemas, as transações em dólares físicos migram rapidamente para a “economia paralela”, aumentando custos e riscos. Já o USDT ou o USDC não exigem conta bancária, permitem transferências diretas e não dependem da infraestrutura local.
Em 2025, a capitalização do mercado de stablecoins aproximou-se dos 300 mil milhões de dólares — cerca de 30% de todas as transações em criptomoedas envolvem stablecoins, sendo uma parte significativa desse volume gerada em países com instabilidade cambial.
Países onde as stablecoins se tornaram parte da economia:
Venezuela
Anos de hiperinflação destruíram a confiança na moeda nacional (VEF), colocando o país entre os 20 com maior adoção de criptoativos. A maior parte do volume ocorre em plataformas P2P, e não em bolsas centralizadas. As empresas aceitam cada vez mais USDT como alternativa à moeda nacional, devido ao acesso limitado ao dólar físico. Na prática, está a formar-se uma infraestrutura de pagamentos paralela, independente do sistema financeiro interno.
Argentina
A procura por criptomoedas surgiu num contexto de controlo cambial e desvalorização crónica do peso. Cerca de 18% da população argentina utiliza criptomoedas — a taxa mais elevada da região. As stablecoins estão integradas em serviços de pagamento, comércio eletrónico e produtos de poupança. Contribuem para isso a elevada percentagem de população não bancarizada e as altas comissões em transferências internacionais.
Nigéria
Como alternativa ao token estatal eNaira, que nunca se tornou um meio de pagamento de massas, foi lançado o stablecoin privado regulado cNGN. O projeto opera sob supervisão dos reguladores financeiros e é apresentado como uma camada alternativa de pagamentos em blockchain.
Naturalmente, o crescimento das stablecoins não elimina os desequilíbrios macroeconómicos. Elas:
- não substituem reformas estruturais;
- não travam a inflação;
- não estabilizam as finanças públicas.
No entanto, ao nível das famílias e das pequenas empresas, constituem um mecanismo funcional de adaptação, permitindo reduzir perdas por desvalorização e contornar sistemas de pagamento ineficientes.
Em paralelo, está a formar-se uma nova camada de infraestrutura:
- cartões de pagamento ligados a stablecoins;
- parcerias com redes globais de pagamentos;
- serviços de transferências internacionais instantâneas com comissões reduzidas.
Isto vai esbatendo progressivamente a fronteira entre as finanças tradicionais e o blockchain.
Em países com hiperinflação, as stablecoins cumprem uma função técnica de acesso a dinheiro estável, e não de investimento. Continuam a ser um elemento de risco no sistema financeiro e não resolvem problemas macroeconómicos, mas permitem aos utilizadores manter acesso ao capital num ambiente económico instável.
Portanto, agimos com prudência e evitamos riscos desnecessários.
Bons lucros a todos!